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A rainha egoísta

Cabelos amarelos voando, olhos azuis entreabertos, o vento batendo no rosto. Aquela tarde ensolarada de domingo era tudo que a menina poderia querer. Do alto de sua bicicleta rosa com espelhos e um sininho, ela saboreava o gosto da mais pura liberdade. Abria os braços, deixando apenas as pernas a equilibrarem, e voava por seu quarteirão arborizado, vivendo intensamente seus sete anos de idade.

Mas nem tudo era perfeito para aquela linda menininha. Ela sabia que não poderia aproveitar aquela tarde por muito tempo. Já passavam das 16 horas e o sol começava a encurtar seu rumo em direção ao horizonte. Além disso, sua mãe a havia mandado à padaria, logo ali. Se demorasse, mamãe sentiria sua falta e iria atrás dela. Isso seria bronca na certa!

Pensou um pouco, ponderou cada fato e decidiu obedecer, indo primeiro aonde deveria. Então, ela levaria a compra para casa e voltaria a pedalar. Perfeito! Essa era uma ótima idéia.

-Dez pãos, pães, por favor.

-Aqui está, mocinha. Muito obrigado. – Disse, com um sorriso, o atendente.

-De nada.

Ufa! Que bom que não tinha fila, pensou a menina. Ela odiaria ter que gastar suas preciosas horas restantes do dia em uma fila chata. Agora, era só levar os pães para casa, logo ali. Então, ela virou a cabeça e viu, muito para lá, o parquinho. Mas não se engane, leitor, pois não foi somente isso o que ela viu. Ela viu o inacreditável. Ela o viu vazio.

-Não pode ser, eu não acredito! O parquinho inteiro só para mim! – Sem pensar duas vezes, saiu correndo em direção a ele, esquecendo-se das palavras de sua mãe,

(mas nunca vá sozinha até o parque, entendeu mocinha? Ela fica muito para lá, e você é pequena demais para ir àquela distância)

pois aquela oportunidade era única e importante demais para que qualquer outra coisa passasse por sua mente.

Duas ou três quadras, e (muito para) lá estava ela. Vislumbrou aquele maravilhoso paraíso da diversão, como uma rainha contempla prazerosamente seu reino recém-conquistado. Hipnotizada pela realidade maravilhosa daquele momento, ignorou em sua cerimônia de posse, a placa repleta de figuras que avisava que o reino estava fechado. Foi dançando e cantarolando por entre os brinquedos até que escolhesse o primeiro com o qual brincaria. Ela olhou para o balanço, o balanço olhou para ela. Ele a convidou para a dança, ela aceitou.

Começou a balançar e balançar e balançar até perceber que não era tão legal brincar sozinha. A rainha percebeu que o seu novo reino não tinha valor, pois ela apenas estava reinando sobre si mesma.

(Queria mamãe para me empurrar aqui.

Por que minhas amiguinhas não vieram hoje?)

Balançou com mais força, e mais força, e mais força, até que finalmente se viu voando. A pequena rainha egoísta tornou-se a heroína que voava e voava. Mas a ferrugem do balanço velho não aguentou e cedeu, arrebentando a corrente, e levando a voadora de encontro ao chão, fazendo sangrar seus joelhos, arranhando seus bracinhos.

A menina, calmamente, levantou-se e deixou uma lágrima de dor cair. Olhou para a sacola jogada na grama e viu que um pão rolara para fora, e estava infestado de formigas. Pegou a sacola, levantou a bicicleta que estava deitada ao lado, e foi andando até sua casa. Ao ver mamãe, a menininha entregou a sacola em suas mãos e se deixou chorar. A mãe a abraçou. A rainha estava arrependida.

“Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.” Lc 15. 7


Weiße und blaue

Branco e azul

Papel, caneta. Cor azul.

Estava na sala e foi andando até o quarto. Pegou o caderno usado em tempos passados, folheou. Muitas folhas em branco ao final de algumas matérias.

A porta está fechada, a janela está aberta. A parede-muro-com-janela do primeiro andar não o deixa ver muita coisa. Apenas azul. Azul de céu azul. Azul da caneta azul. Enquanto pensa no que escrever, a porta se abre. Ele então vê vermelho. Ouve algumas palavras, diz outras, pratica certas ações. Vermelho se retira, devolvendo ele ao branco e ao azul.

Será dissertativo?

(Faz tempo que não presta atenção aos jornais)

Anedótico?

(mas ele não tem graça!)

Conotativo?

(Livre-arbítrio para interpretação textual?)

Denotativo?

(E se estiver errado?)

Irônico?

(Genial!)

Sem sentido?”

(Conotativamente por que não?)

Os sentidos são muitos mas a ausência deles multiplica as possibilidades. As palavras já existem, e sua junção já tem futuro, mas ainda não nasceu.

“Se depender de vermelho que novamente irrompeu, não vai nascer nunca.”

Vermelho se retira. Ele respira fundo, vai tentar de novo.

A música corre ao fundo, e os rodos vão batendo, a água correndo, os pios piando, as notas se alternando. Tudo parado, mas tudo existindo. Movimento dançando com inércia. Nessa dança as palavras voam e a tinta se gasta, a medida que o papel as recebe.

Existe vida nas palavras que se unem. E mesmo que pareça uma loucura, chega uma hora em que elas tomam conta de espaço e nem de longe se parecem com as tímidas donzelas das primeiras linhas, que fugiam de aparecer. Agora elas perdem a timidez e se sentem felizes por terem chegado até aqui. A mão dele, que as escreve, sente-se dolorida, mas feliz. Após tanto tempo, mais um bebê nasceu. Mais palavras se juntaram mesmo que sem sentido, e ele se sente envergonhado por um dia tê-las abandonado.

A partir de hoje, ele vai tentar ser mais fiel.


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