Weiße und blaue

Papel, caneta. Cor azul.
Estava na sala e foi andando até o quarto. Pegou o caderno usado em tempos passados, folheou. Muitas folhas em branco ao final de algumas matérias.
A porta está fechada, a janela está aberta. A parede-muro-com-janela do primeiro andar não o deixa ver muita coisa. Apenas azul. Azul de céu azul. Azul da caneta azul. Enquanto pensa no que escrever, a porta se abre. Ele então vê vermelho. Ouve algumas palavras, diz outras, pratica certas ações. Vermelho se retira, devolvendo ele ao branco e ao azul.
“Será dissertativo?
(Faz tempo que não presta atenção aos jornais)
Anedótico?
(mas ele não tem graça!)
Conotativo?
(Livre-arbítrio para interpretação textual?)
Denotativo?
(E se estiver errado?)
Irônico?
(Genial!)
Sem sentido?”
(Conotativamente por que não?)
Os sentidos são muitos mas a ausência deles multiplica as possibilidades. As palavras já existem, e sua junção já tem futuro, mas ainda não nasceu.
“Se depender de vermelho que novamente irrompeu, não vai nascer nunca.”
Vermelho se retira. Ele respira fundo, vai tentar de novo.
A música corre ao fundo, e os rodos vão batendo, a água correndo, os pios piando, as notas se alternando. Tudo parado, mas tudo existindo. Movimento dançando com inércia. Nessa dança as palavras voam e a tinta se gasta, a medida que o papel as recebe.
Existe vida nas palavras que se unem. E mesmo que pareça uma loucura, chega uma hora em que elas tomam conta de espaço e nem de longe se parecem com as tímidas donzelas das primeiras linhas, que fugiam de aparecer. Agora elas perdem a timidez e se sentem felizes por terem chegado até aqui. A mão dele, que as escreve, sente-se dolorida, mas feliz. Após tanto tempo, mais um bebê nasceu. Mais palavras se juntaram mesmo que sem sentido, e ele se sente envergonhado por um dia tê-las abandonado.
A partir de hoje, ele vai tentar ser mais fiel.
O Que Andam Falando