O triste fim do causador


Feito de madeira raríssima e cromado, o algo refletia como um espelho. E custava muito dinheiro. Ficava exposto imponente no lugar de maior destaque da Coleção – sala em que o principal guardava seus pertences mais valiosos e estimados, como troféus, medalhas e lembranças dos tempos de glória.
Os olhos do jovem deslumbravam-no, enquanto a raiva que sentia devido aos recentes ocorridos lhe enchia a mente de ideias. Queria apossar-se do algo e destruir o causador dos problemas. Respirou fundo e pôde ouvir seu coração batendo, suas mãos tremendo e suando. Ele sabia que não devia estar ali; Coleção era zona proibida. No ritmo forte das batidas do coração, revoltava-se ao lembrar que mais uma vez o causador havia desempenhado sua função. Pensou se seria certo fazer o que há tempos planejava.
Murros na porta e berros horrendos cortaram bruscamente o silêncio. Principal, irado pela invasão à Coleção, mandava-o sair imediatamente, prometendo agir com menos devastação caso ele cooperasse. Mas o jovem não se preocupava com isso, pois queria mesmo era dar um fim ao causador. Pegou o algo e flutuou tão suave quanto uma pedra em direção à porta, onde, do outro lado, como um monstro, principal gritava.
O jovem abriu a porta e correu em direção ao lugar de todos. Viu seus espectadores e encarou o causador – que o encarava de volta com seu único e gigantesco olho, como que tirando sarro dele. De suas duas bocas separadas, ouvia-se Vivaldi. Com passos de pedra o jovem dirigiu-se a ele e o algoou, sem sucesso. A pele do causador era demasiado dura, feita de plástico e metal, e ele resistia bem aos ataques. O jovem então pegou a cabeça e a jogou com toda força ao chão. O grande olho de vidro quebrou-se e silenciosamente se escureceu. As veias externas se romperam enquanto o jovem pegava as bocas e as jogava pela janela. Não era preciso fazer mais nada.
Com o causador destruído, o jovem voltou a si. Percebeu que teria problemas. Mas ao mesmo tempo em que estava enrascado, agora estava livre. Desceu as escadas correndo e rindo, diante dos olhos chocados dos espectadores. Já fora do prédio, gargalhava enquanto dobrava a esquina, para desde então, nunca mais ser visto.
O Que Andam Falando