Ensaio sobre a ansiedade II – Moradias
Quando a brisa leve das gotas se vai, e a rajada das rochas também, por muitas vezes o que sobra são os pensamentos. E neles não há lugar para limitações, não há espaço para dimensões, pois a mente é o mundo no qual diferença entre sonho e realidade, entre ausência e presença pode ser tão grande que nos afogue como pode simplesmente não existir. Dentro da cabeça racional que nos foi dada, há liberdade para acreditar, duvidar, ser, ter, andar ou parar. Porque o pensar gera o crescer, e são das dúvidas que surgem as soluções.
Porém aqui é tudo escuro. Tudo são vislumbres, tudo ilusão. A vaidade permeia o estar, o fazer, e até o pensar. Sendo assim, mesmo que para agora tantos processos dialéticos pareçam importantes, haverá um tempo em que tudo não mais assim será. Ao nos lembrarmos de tantas preocupações já ultrapassadas, tantos medos já sentidos, percebemos o que na verdade deveríamos sempre ter entendido. Vaidade das vaidades, todos os dias vivemos vaidades.
O tempo passa e a vida muda subitamente. Tantos desejos, tantos projetos podem dissolver em um instante. Prioridades acabam sendo invertidas e toda a estrutura que possuíamos se instabiliza mesmo sem querer. E como é difícil retornar ao que se era, como é difícil renovar as forças que se possuía. Mas em meio ao mar de pessimismo e desilusão, surge na memória a lembrança de algo bom. Renovar as forças não é impossível, e a verdade nisto é tão grande, que até mesmo voar torna-se um alvo atingível. As águias têm uma força gigante, mas O Dono das moradias está além de qualquer coisa. Ele É.
…
Moram nas casas humanos, e moram em humanos corações. Moram em corações sentimentos, moram em sentimentos palavras que me faltam. Palavras que dizem da alegria, da tristeza, da verdade do viver. Palavras que ainda não chegaram, e sempre se ausentam quando delas se espera a presença.
Mas nos sentimentos não há apenas as palavras. Por mais que o silêncio na verdade não exista, por ser apenas a ausência de todo o som, ele também ali se faz morar, trazendo dúvidas a corações partidos pelo medo do que foi ou do que será. E este silêncio por vezes traz dor, impedindo a qualquer um de ver a resposta que nele existe. Quando se volta os ouvidos para ouvir a voz incrível que no silêncio ou no barulho, na brisa ou na tempestade, nos gritos ou nos sussuros pode algo dizer, é possível entender e perceber quão belas são as palavras (mesmo que ditas na escuridão de um quarto isolado, em meio a uma multidão opressora ou em momentos de alegria e comunhão) proferidas pela Voz que criou todas as moradias, e prepara novas em uma casa eterna e completamente inimaginável.
“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” Jo 14.1,2
Seis e meia

Já passou das seis. O dia foi estressante, e duas aulas de Química A seguidas eram as últimas coisas que eu iria querer. Eu estou sonolento, e o professor possivelmente percebeu isso, apesar dos mais de cem colegas que me rodeavam. Agora tudo acabou. Amanhã tem mais. Mas por hoje, o resto da noite significa livros, cadernos e apostilas. Química A é mais complicada que B.
O céu está enegrecendo, e esta hora é a mais esperada por todos. Inclusive os mais de trinta que estão na minha frente na fila. E isso é só o começo. Lá dentro está tudo lotado. E dentro do que todos esperamos, a situação não é mais animadora. Possivelmente passar pela terceira porta vermelha será um duelo de titãs. Mania que todos têm de ficar ao redor dela.
Atrás de mim vai se criando uma multidão, e na minha retaguarda está uma senhora. Cada vez que me mexo, minha mochila gigante a esbofeteia. Engraçado.
Os mais de trinta vão virando quinze, dez, vão virando cinco. Finalmente entro no mundo circular e minúsculo do desconforto e afobação.
Chega um. Cheio, não consigo entrar. Olho para o relógio preto no pulso de alguém, são seis e meia. Chega outro, enche, não consigo entrar. Preciso dar uns empurrões, tento ser educado, mas a lei da selva fala mais alto. Outras e várias vezes fui educado e fiquei na mão. Agora mesmo isso aconteceu. E olha que a instrução diz que devemos sempre esperar pelos outros! Estou bem na frente, acho que no próximo eu consigo entrar. Olho em volta e vejo que o número de pessoas diminuiu bastante.
Lá distante vem chegando o esperado. Lotado, ele para, abrem-se suas portas. Sim, a terceira porta está cheia de surdos que não ouvem a voz eletrônica dizendo, evite ficar na terceira porta. Muitos humanos. Ah, sim, tantos rostos cansados de mais um dia de servidão. Apesar de seu olhar hostil, preciso entrar. Também cansei hoje.
Com licença, me desculpe, com licença, com licença. Quarta porta. Por incrível que pareça, os ares por aqui são bem mais livres do que por lá. Essa concentração ao redor do três é intrigante. Paro ao lado de uma cadeira, e nela está sentada uma garota. Ela é meio loira, tem um rosto inesquecível, olhos castanhos que contam histórias tristes. Expressa beleza, exala inteligência. Ela não olha para mim, e não tem porque fazê-lo. Apenas eu, conforme a discrição permite, admiro-a e permito que meus olhos a contemplem, até que se passam uns quinhentos metros, e paramos novamente. Ela se levanta, não olha para mim, e sai. Junto com ela sai boa parte dos humanos ali presentes. Sento-me.
Pelo jeito lá fora há um burburinho. Tenho a impressão de ouvir alguém gritando, mas não consigo entender claramente. Deve ser só impressão. As portas se fecham, e ouço uma forte buzina. Fecho meus olhos e me concentro, esperando não precisar oferecer meu lugar para ninguém.
…
O Que Andam Falando