Uma caixa grande e bonita


Estava tudo guardado dentro de uma caixa grande e bonita. Suas memórias, talentos, sonhos, amores, glórias. Ela fez questão de deixar as belezas em evidência. A caixa era enfeitada e tinha detalhes dourados. Aquele era um belo presente.
Mas quando ela o abriu, foi tomada por surpresa e pânico. Tudo aquilo que ela achava tão lindo e estava prestes e entregar a Ele
(eu tinha até embalado em uma linda caixa!)
em uma linda aparência, era sujeira. Algo devia estar errado! Ela sabia que era tudo lindo, ela mesma havia colocado ali. Ela mesma havia dedicado seu tempo a escolher o seu melhor. Descobriu que seu melhor não era nada. Ela sentiu-se vazia.
Enquanto revirava toda aquela sujeira, tentando encontrar pelo menos um resquício de toda a beleza que ali ela havia guardado, procurava em sua mente acreditar que aquilo não estava acontecendo. Olhava para suas mãos enlameadas enquanto as lágrimas caíam de seu rosto. Talvez fosse uma piada de mau gosto, talvez alguém a estivesse perturbando. Mas não. Era aquilo mesmo. Seu tesouro, sua beleza, tudo de mais belo que ela possuía resumia-se a nada. Um nada bastante sujo, por sinal.
(como pode ser? eu mesma coloquei aqui todas as belezas. fiz questão de não colocar erros, para que eles não sujassem todo o resto… não consigo entender!)
Ela lutava sozinha. Pensava que, entregando as belezas a Ele, estaria tudo certo. Isto porque ela não sabia que diante dEle suas belezas, seus mais altos caminhos eram falhos e feios. E tudo isso porque ela insistia em lutar sozinha. Ela insistia em querer esconder dEle aquilo que ela pensava que não O agradaria. Ela não sabia que era exatamente isso que Ele esperava dela. Que O entregasse não somente sua máscara de perfeita, mas seu coração de humana.
O problema é que ela tinha uma vaidade. Só de pensar em tirar a máscara já lhe dava arrepios.
(renuncio quase tudo, menos minha máscara!)
A máscara é quem a fazia ser quem era. Por trás da máscara aquela beleza não existia. Por trás da máscara havia medo, vergonha, revolta. Por trás do medo havia vazio. Por trás do vazio se escondia o orgulho.
E assim, ela tentou mais algumas vezes guardar todas as belezas na linda caixa, mas toda a vez que a abria, já não passava de sujeira. Acabou cansando, e a abandonando em certo lugar. Decidiu lavar suas mãos com a água da hipocrisia. Sua vida terminou, sua esperança também. Porém algo permaneceu intacto em seu lugar até que lugar não mais existisse: sua máscara.
“Porque todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus.” Rm 3.23
“Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento.” Lc 5.32
A rainha egoísta

Cabelos amarelos voando, olhos azuis entreabertos, o vento batendo no rosto. Aquela tarde ensolarada de domingo era tudo que a menina poderia querer. Do alto de sua bicicleta rosa com espelhos e um sininho, ela saboreava o gosto da mais pura liberdade. Abria os braços, deixando apenas as pernas a equilibrarem, e voava por seu quarteirão arborizado, vivendo intensamente seus sete anos de idade.
Mas nem tudo era perfeito para aquela linda menininha. Ela sabia que não poderia aproveitar aquela tarde por muito tempo. Já passavam das 16 horas e o sol começava a encurtar seu rumo em direção ao horizonte. Além disso, sua mãe a havia mandado à padaria, logo ali. Se demorasse, mamãe sentiria sua falta e iria atrás dela. Isso seria bronca na certa!
Pensou um pouco, ponderou cada fato e decidiu obedecer, indo primeiro aonde deveria. Então, ela levaria a compra para casa e voltaria a pedalar. Perfeito! Essa era uma ótima idéia.
-Dez pãos, pães, por favor.
-Aqui está, mocinha. Muito obrigado. – Disse, com um sorriso, o atendente.
-De nada.
Ufa! Que bom que não tinha fila, pensou a menina. Ela odiaria ter que gastar suas preciosas horas restantes do dia em uma fila chata. Agora, era só levar os pães para casa, logo ali. Então, ela virou a cabeça e viu, muito para lá, o parquinho. Mas não se engane, leitor, pois não foi somente isso o que ela viu. Ela viu o inacreditável. Ela o viu vazio.
-Não pode ser, eu não acredito! O parquinho inteiro só para mim! – Sem pensar duas vezes, saiu correndo em direção a ele, esquecendo-se das palavras de sua mãe,
(mas nunca vá sozinha até o parque, entendeu mocinha? Ela fica muito para lá, e você é pequena demais para ir àquela distância)
pois aquela oportunidade era única e importante demais para que qualquer outra coisa passasse por sua mente.
Duas ou três quadras, e (muito para) lá estava ela. Vislumbrou aquele maravilhoso paraíso da diversão, como uma rainha contempla prazerosamente seu reino recém-conquistado. Hipnotizada pela realidade maravilhosa daquele momento, ignorou em sua cerimônia de posse, a placa repleta de figuras que avisava que o reino estava fechado. Foi dançando e cantarolando por entre os brinquedos até que escolhesse o primeiro com o qual brincaria. Ela olhou para o balanço, o balanço olhou para ela. Ele a convidou para a dança, ela aceitou.
Começou a balançar e balançar e balançar até perceber que não era tão legal brincar sozinha. A rainha percebeu que o seu novo reino não tinha valor, pois ela apenas estava reinando sobre si mesma.
(Queria mamãe para me empurrar aqui.
Por que minhas amiguinhas não vieram hoje?)
Balançou com mais força, e mais força, e mais força, até que finalmente se viu voando. A pequena rainha egoísta tornou-se a heroína que voava e voava. Mas a ferrugem do balanço velho não aguentou e cedeu, arrebentando a corrente, e levando a voadora de encontro ao chão, fazendo sangrar seus joelhos, arranhando seus bracinhos.
A menina, calmamente, levantou-se e deixou uma lágrima de dor cair. Olhou para a sacola jogada na grama e viu que um pão rolara para fora, e estava infestado de formigas. Pegou a sacola, levantou a bicicleta que estava deitada ao lado, e foi andando até sua casa. Ao ver mamãe, a menininha entregou a sacola em suas mãos e se deixou chorar. A mãe a abraçou. A rainha estava arrependida.
“Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.” Lc 15. 7
O Que Andam Falando