Seis e meia

Já passou das seis. O dia foi estressante, e duas aulas de Química A seguidas eram as últimas coisas que eu iria querer. Eu estou sonolento, e o professor possivelmente percebeu isso, apesar dos mais de cem colegas que me rodeavam. Agora tudo acabou. Amanhã tem mais. Mas por hoje, o resto da noite significa livros, cadernos e apostilas. Química A é mais complicada que B.
O céu está enegrecendo, e esta hora é a mais esperada por todos. Inclusive os mais de trinta que estão na minha frente na fila. E isso é só o começo. Lá dentro está tudo lotado. E dentro do que todos esperamos, a situação não é mais animadora. Possivelmente passar pela terceira porta vermelha será um duelo de titãs. Mania que todos têm de ficar ao redor dela.
Atrás de mim vai se criando uma multidão, e na minha retaguarda está uma senhora. Cada vez que me mexo, minha mochila gigante a esbofeteia. Engraçado.
Os mais de trinta vão virando quinze, dez, vão virando cinco. Finalmente entro no mundo circular e minúsculo do desconforto e afobação.
Chega um. Cheio, não consigo entrar. Olho para o relógio preto no pulso de alguém, são seis e meia. Chega outro, enche, não consigo entrar. Preciso dar uns empurrões, tento ser educado, mas a lei da selva fala mais alto. Outras e várias vezes fui educado e fiquei na mão. Agora mesmo isso aconteceu. E olha que a instrução diz que devemos sempre esperar pelos outros! Estou bem na frente, acho que no próximo eu consigo entrar. Olho em volta e vejo que o número de pessoas diminuiu bastante.
Lá distante vem chegando o esperado. Lotado, ele para, abrem-se suas portas. Sim, a terceira porta está cheia de surdos que não ouvem a voz eletrônica dizendo, evite ficar na terceira porta. Muitos humanos. Ah, sim, tantos rostos cansados de mais um dia de servidão. Apesar de seu olhar hostil, preciso entrar. Também cansei hoje.
Com licença, me desculpe, com licença, com licença. Quarta porta. Por incrível que pareça, os ares por aqui são bem mais livres do que por lá. Essa concentração ao redor do três é intrigante. Paro ao lado de uma cadeira, e nela está sentada uma garota. Ela é meio loira, tem um rosto inesquecível, olhos castanhos que contam histórias tristes. Expressa beleza, exala inteligência. Ela não olha para mim, e não tem porque fazê-lo. Apenas eu, conforme a discrição permite, admiro-a e permito que meus olhos a contemplem, até que se passam uns quinhentos metros, e paramos novamente. Ela se levanta, não olha para mim, e sai. Junto com ela sai boa parte dos humanos ali presentes. Sento-me.
Pelo jeito lá fora há um burburinho. Tenho a impressão de ouvir alguém gritando, mas não consigo entender claramente. Deve ser só impressão. As portas se fecham, e ouço uma forte buzina. Fecho meus olhos e me concentro, esperando não precisar oferecer meu lugar para ninguém.
…
O Que Andam Falando