Somente.

Archive for junho, 2011

Assado assim

-Eu estou certo!

-Não, você está errado!

-Por favor, como você consegue ser desse jeito? Eu já disse que estou certo.

-Por favor digo eu! Está na cara que você está errado!

-Olha só, vamos recapitular.  Foi assim, assim, assim, assado! Não se lembra?

-Lembro-me, sim, meu querido. E me lembro perfeitamente que foi assado, assim, assado, assim!

-Isto é absurdo! Desde quando assado vem antes de assim? Não é ‘assim’ que as coisas funcionam, não, minha querida!

-Pois é assim sim e ponto final. Afinal, desde quando um negócio deste terminaria em assado? Só se for feito pela sua mamãe!

-Ah, nem vem! Não fale do jeito que minha mãe faz as coisas porque ela é ótima em tudo o que faz, diferente de certas pessoas por este mundo afora…

-Se ela fizesse tudo perfeito, você seria bem diferente… E quer saber mais? Se eu sou tão ruim e sua mamãezinha é tão perfeitinha vá morar com ela. Nem ela em toda a sua perfeição vai aguentar você por mais de uma semana.

-Quer saber? Eu vou mesmo. Mas vou para chamar ela até aqui, ensinar você a fazer as coisas direito.

-Então você vai ter que mandar ela fazer as coisas direito lá pela casa dela mesmo, porque aqui aquela mulher não pisa!

-Eu também mando nessa casa e traga minha mãe quando eu bem quiser!

-Tudo bem, traga sua mãe…

-O que você fazendo?

-Estou ligando para o meu pai. Ele vai adorar ficar uma temporada na casa da filhinha dele e do querido maridinho dela. E junto com a mamãe do maridinho de brinde, vai ser perfeito!

-Tá louca? Seu pai me odeia! Não lembra o que ele fez no nosso casamento?

-Hahaha, lembro, e me mato e rir toda vez que penso nisso. E como se não fosse pouco ele ainda ameaçou matar você se você não me fosse um bom marido…

-Ah, e agora você vai jogar na minha cara que eu não sou um bom marido? O que você quer mais? Tudo o que eu te dou e faço por você não é suficiente?

-Imagina! Você é um marido perfeito! Perfeito como tudo o que faz a sua mãe!

-Já falei pra tirar a minha mãe disso! Você está muito longe de ser a melhor esposa do mundo também…

-Pelo menos eu não tenho uma mãe que adora destruir o casamento dos filhos.

-E eu não tenho um pai que ameaça matar os maridos das filhas…

-Não vou mais perder meu tempo com você. Pode voltar pra casa da sua mamãe, porque eu fora. Adeus!

-Eu mais fora ainda! Adeus!

…tudo porque a receita de pavê dizia que ele deveria ser misturado, depois assado, depois montado, depois servido. isso que dá duas crianças quererem se casar…

 “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne.” Ef 5:31


Códigos

Secreto. Interno. Escondido. São seus pensamentos que vagam correndo no infinito de sua mente, enquanto ele vive, enquanto ele existe. Ele senta-se e deixa que eles sejam, que façam, e por muito tempo deixou que o controlassem. Mas sua ânsia por liberdade permitiu-lhe deixar que fugissem da mente para fora, tornando-se parte do mundo, parte do todo. E agora ele deixa os outros deles estarem. Estarem no que ele faz, no que em breve terminará. Não se sabe o quanto, não se sabe como, mas ele faz, ah, sim ele faz. E na verdade sempre fez, e acho que os outros também o fizeram. Se ele permitia que seus pensamentos escorressem como gotas sangue sobre seus dedos, aquilo que faria o que fez, então ele tentava permitir que a liberdade o encontrasse, sem que outros o encontrassem também. Ele pensa que é comum deixar que o rio corra com suas caudalosas águas, mesmo que às vezes as barragens sejam mais fortes. Não importa a força de tais barreiras, pois aquilo que é livre respira a liberdade e desta não pode se afastar. Chega o tempo certo, rompem-se as barragens, correm as águas e retiram toda sombra de variação, todo espírito de confusão. Molhadas pelas águas, as árvores do ser são curadas, têm sua seiva restaurada, e começa-se a ver os frutos surgindo, em uma situação acima do natural. Muito além do normal.

Não há nada planejado, não há roteiros prontos, apenas uma mente que permite o deslizar das palavras, da pena ao papel. E enquanto ele consegue, vai deixando que flua sem parar para pensar nas maneiras de juntar, no melhor jeito de combinar. Se houver ritmo, houve, se houver inércia, houve também, e com a vida própria que tem tudo aquilo que já é si por si, os sentidos se abrem, e por trás deles outros se escondem, e por trás destes outros também. Não há necessidade de limão ser limão, e por que terra tem que ser chão? A poesia guarda sentidos que ninguém é capaz de compreender. Palavras juntas escondem gemidos que ninguém é capaz de escutar, e por trás de aquilo que se escreve, se diz, se expressa, há clamores de almas aflitas, regozijo de almas agradecidas, há a realidade do que é ser humano. Sofrer, sentir, amar, aprender, sorrir. E em cada uma dessas coisas, estão lá nossos códigos, encriptados por uma ciência que ciência alguma é capaz de desmembrar, e quem sabe o encriptador nunca tenha um sequer que entenda o sentido em seus mistérios lá codificados.


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