A árvore seca
Andei apressadamente, olhando para trás. Era tarde da noite, a bateria do celular tinha acabado; não costumo usar relógio. Luzes apagadas, nada de carros, nada de pessoas, uma lua gigantesca fazendo com que os galhos das àrvores, ao olhar para cima, tornassem-se ameaçadores braços. Olhei para baixo, meu tênis estava sujo. Olhei para os lados, puro vazio. Como poderia isso estar acontecendo?
Comecei a correr, acelerei em direção à nada. Fujia do nada. Uma luz se acendeu, seguida de outra, seguida de outras. Ofegante, cheio de dúvidas, perdido, senso de direção desligado. Olhei para a trilha de luzes dos postes e vi que lá no horizonte, onde as luzes continuavam mas meus olhos não viam, surgia alguém. Num instante meus olhos não viam mais nada. Um clarão tomou conta de minha visão, e o que via era somente branco. Onde estava toda aquela escuridão?
De supetão acordei. “Foi só um sonho. Ufa!” Há sonhos que são tão reais, chegam a nos dar medo mesmo depois de acordados. Ainda era noite, levantei. Liguei a luz, fui tomar um copo d’água.
“Foi só um sonho, só isso. Sou feliz, sou uma pessoa boa, minha vida é tudo que eu gostaria de ter”.
(Será?)
“Era só o que faltava. Vou discutir comigo mesmo às… 3 horas da manhã!”
(Será que sou feliz realmente?)
“Pare de pensar nisso! É claro que sou feliz! O que mais alguém poderia querer?”
(Talvez… Ser verdadeiro comigo mesmo, que tal?)
“A única pessoa pra quem eu não posso mentir é pra mim mesmo, que história é essa de ser verdadeiro?”
(Engano meu. Estou mentindo pra mim mesmo a vida toda. Sei muito bem.)
É claro que eu não mentia pra mim mesmo. No auge dos meus 22 anos, eu apenas estava vivendo o melhor de minha vida. Alguns amigos e meus pais vinham com papos de religião, mas eu lhes deixava claro que isso não era para mim. Afinal, nunca matei ninguém, nunca roubei (pelo menos até onde me lembre) e não praticava o mal. Era uma boa pessoa, ora! Religião? Ah, deixe isso pra outros. Eu queria ser livre. Às vezes, quando não tinha nada pra fazer, até lia a Bíblia! É claro que acreditava em Deus. Apenas não dependia de religiões.
Como minha mente era escura. Como eu era egoísta e enganado! Eu mentia em minha própria cara e cuspia para mim mesmo todo o lamaçal que havia em meu interior. Eu fujia dos meus medos, ao passo que o meu maior medo era de mim mesmo. Dizia de boca cheia ser feliz por na verdade de coração vazio ser completamente triste. Uma lâmpada se acendeu em minha cabeça, em meio à minha discussão.
“Talvez eu esteja mesmo. Talvez a alegria que eu sinto, o prazer que eu desfruto, a autosuficiência que penso ter sejam simplesmente mentiras que contei para mim, e tive a coragem de acreditar.”
(Agora sim minha mente está clareando! Parabéns a mim! Finalmente estou percebendo que tudo o que vivi até agora não teve sentido nenhum!)
“Sim, é isso mesmo! Meus sapatos estão sujos, pois tenho andado na pura lama. Estou desnorteado porque preferi andar na escuridão. Braços terríveis ao mesmo tempo que me conduziram para onde estou, também me assustam onde me colocaram. Como pode ser?”
Ohei para o copo d’água, bebi. Olhei para a mesa, a Bíblia estava nela. A Bíblia estava aberta. Mais cedo eu a havia folheado e deixado por ali. Ao ler o que estava escrito, minhas lágrimas não deixaram de rolar. E ali, no chão da cozinha, prostrei-me diante daquele que fez o céu e a terra. Não sei a que horas levantei, mas lembro-me como hoje, quebrei-me, confessei todos os meus erros e minhas falhas, e supliquei a Jesus que me aceitasse. “Eu preciso do Senhor, eu anseio pelo Senhor, eu não sou nada sem o Senhor!” Desde então, aquela àrvore seca que eu era, não sou mais. A Água Viva que bebi limpou-me, transformou-me, salvou-me. Não sou mais eu. Cristo vive em mim.
Muitas árvores secas. Muitas vidas mortas. Muitas almas sedentas. Cabe àquelas que receberam a vida anunciar às outras a esperança que há em Cristo. Que todos sejamos, através de nossos atos, àrvores vivas, que dão bons frutos e são bênçãos nas mãos dAquele que tudo fez, e que a todos ama com amor maior que a morte, transformador de toda a vida.
“Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” Jo 4.13,14
Ensaio sobre a ansiedade II – Moradias
Quando a brisa leve das gotas se vai, e a rajada das rochas também, por muitas vezes o que sobra são os pensamentos. E neles não há lugar para limitações, não há espaço para dimensões, pois a mente é o mundo no qual diferença entre sonho e realidade, entre ausência e presença pode ser tão grande que nos afogue como pode simplesmente não existir. Dentro da cabeça racional que nos foi dada, há liberdade para acreditar, duvidar, ser, ter, andar ou parar. Porque o pensar gera o crescer, e são das dúvidas que surgem as soluções.
Porém aqui é tudo escuro. Tudo são vislumbres, tudo ilusão. A vaidade permeia o estar, o fazer, e até o pensar. Sendo assim, mesmo que para agora tantos processos dialéticos pareçam importantes, haverá um tempo em que tudo não mais assim será. Ao nos lembrarmos de tantas preocupações já ultrapassadas, tantos medos já sentidos, percebemos o que na verdade deveríamos sempre ter entendido. Vaidade das vaidades, todos os dias vivemos vaidades.
O tempo passa e a vida muda subitamente. Tantos desejos, tantos projetos podem dissolver em um instante. Prioridades acabam sendo invertidas e toda a estrutura que possuíamos se instabiliza mesmo sem querer. E como é difícil retornar ao que se era, como é difícil renovar as forças que se possuía. Mas em meio ao mar de pessimismo e desilusão, surge na memória a lembrança de algo bom. Renovar as forças não é impossível, e a verdade nisto é tão grande, que até mesmo voar torna-se um alvo atingível. As águias têm uma força gigante, mas O Dono das moradias está além de qualquer coisa. Ele É.
…
Moram nas casas humanos, e moram em humanos corações. Moram em corações sentimentos, moram em sentimentos palavras que me faltam. Palavras que dizem da alegria, da tristeza, da verdade do viver. Palavras que ainda não chegaram, e sempre se ausentam quando delas se espera a presença.
Mas nos sentimentos não há apenas as palavras. Por mais que o silêncio na verdade não exista, por ser apenas a ausência de todo o som, ele também ali se faz morar, trazendo dúvidas a corações partidos pelo medo do que foi ou do que será. E este silêncio por vezes traz dor, impedindo a qualquer um de ver a resposta que nele existe. Quando se volta os ouvidos para ouvir a voz incrível que no silêncio ou no barulho, na brisa ou na tempestade, nos gritos ou nos sussuros pode algo dizer, é possível entender e perceber quão belas são as palavras (mesmo que ditas na escuridão de um quarto isolado, em meio a uma multidão opressora ou em momentos de alegria e comunhão) proferidas pela Voz que criou todas as moradias, e prepara novas em uma casa eterna e completamente inimaginável.
“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” Jo 14.1,2
Pseudoema


Não gosto de poesia,
confesso com grosseria
Falta-me muita paciência
para ver nisto pertinência
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Mas como palavras esperam
que algo co’elas seja escrito
Trato de rimas fazê-las
Pseudoemas no sentido estrito.
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Certa feita, tentei fazer
narrativa e aqui transcrever
Mas faltou-me inspiração para tal
tive então que delas me abster
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Sem outro rumo a seguir
por pseudoema decidi me decidir
E desta ruim decisão
surgiu tão chato bordão
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Se quiseres culpar-me
culpar-te não irei
Por tão fracamente eu ceder
à facilidade de um poema escrever
O Que Andam Falando