Ensaio sobre a ansiedade I – Espelho


“Tick-tack. Onomatopéia.
Hahahahaha. Onomatopéia
Solidão. Depressão.
Sentimento, recessão.”
As gotas são muitas, brilhando nos vidros, caindo nas ruas. As torres, bem altas balançam com as árvores, e a escuridão das negras nuvens dissolve-se ao correr dos ponteiros imaginários acima do verde quadro.
Há alguns minutos não havia ninguém, mas agora as risadas se unem às conversas, se ouvem ruídos, ranger de tênis, batidas na parede, e à medida que o barulho se intensifica, assobios, objetos caindo, cadeiras arrastando, vozes imaginárias, lembranças, ploc-ploc, calçado de salto, porta fechando, folhas se alternando, zíper se abrindo, caneta escrevendo, alguém observando, tudo gritando.
- Leute, ich habe nicht die Anwesenheitsliste zu bringen, aber du Zeichen der Liste.
A solidão facilita a observação. Aos poucos, as engrenagens vêm parando, parando, param e resta o silêncio.
…
…
…
O coração bate forte, o alto número de sensações agita os nervos. Incrívelmente, só de ouvir, a ansiedade se apresenta novamente.
Olhos fechados, tudo escurece. Porém, é possível ver a claridade das dúvidas, dos medos, da ânsia. O corpo estremece e o frio abraça a insegurança, somente vê-se o branco, somente ouve-se o nada, mas há ruídos, há cores, há amigos, há vida, há medo.
(O que será?)
Explode.
Real.
Volta.
Muda.
.aduM
.atloV
.laeR
.edolpxE.
(É.)
Olhos abertos, tudo clareia. E é impossível ver a escuridão das dúvidas, dos medos, da ânsia. O corpo enrijece e o calor se afasta da segurança, não vê-se o escuro, não ouve-se o tudo, e finda-se o silêncio, findam-se pedras, finda-se o frio, anda sussurros.
Sim e sim ou sim e não. Multidão, repetição. Multidão que afoga a tranquilidade. Subitamente tudo volta. Tudo corre, engrenagens, giros, gritos, nada no tudo, gritos no escuro. O coração se estabiliza, batidas em normal, mas o sangue se congela, as sensações se dissolvem.
- Einfach. Sie sind sehr hartnäckig.
Tudo está cheio, ou vazio, confuso. Se há ou não há, se cai ou caiu, os gritos são surdos, tão mudos, não têm força em seu desespero. No anseio, medidas, silêncio, silêncio, anseio, medidas. Sopros soprando, vento ventando, nada nadando, ande em andando, luz enluzando, quieto qui…e…tan… …ndo.
#EE82EE, o ‘círclo’, abaixo de si, não está ponteirado, e as pedras mui claras se unem no viver da daninha que, inerte a existência dos cadarços, ressoa pelo evaporar das gotas que, ao tocarem nas flamejantes e violentas rajadas da espessa rocha derretida, trazem toda a destruição de um sonho desmoronado.
Gopher Broke
Final supreendente. Hahaha.
O triste fim do causador


Feito de madeira raríssima e cromado, o algo refletia como um espelho. E custava muito dinheiro. Ficava exposto imponente no lugar de maior destaque da Coleção – sala em que o principal guardava seus pertences mais valiosos e estimados, como troféus, medalhas e lembranças dos tempos de glória.
Os olhos do jovem deslumbravam-no, enquanto a raiva que sentia devido aos recentes ocorridos lhe enchia a mente de ideias. Queria apossar-se do algo e destruir o causador dos problemas. Respirou fundo e pôde ouvir seu coração batendo, suas mãos tremendo e suando. Ele sabia que não devia estar ali; Coleção era zona proibida. No ritmo forte das batidas do coração, revoltava-se ao lembrar que mais uma vez o causador havia desempenhado sua função. Pensou se seria certo fazer o que há tempos planejava.
Murros na porta e berros horrendos cortaram bruscamente o silêncio. Principal, irado pela invasão à Coleção, mandava-o sair imediatamente, prometendo agir com menos devastação caso ele cooperasse. Mas o jovem não se preocupava com isso, pois queria mesmo era dar um fim ao causador. Pegou o algo e flutuou tão suave quanto uma pedra em direção à porta, onde, do outro lado, como um monstro, principal gritava.
O jovem abriu a porta e correu em direção ao lugar de todos. Viu seus espectadores e encarou o causador – que o encarava de volta com seu único e gigantesco olho, como que tirando sarro dele. De suas duas bocas separadas, ouvia-se Vivaldi. Com passos de pedra o jovem dirigiu-se a ele e o algoou, sem sucesso. A pele do causador era demasiado dura, feita de plástico e metal, e ele resistia bem aos ataques. O jovem então pegou a cabeça e a jogou com toda força ao chão. O grande olho de vidro quebrou-se e silenciosamente se escureceu. As veias externas se romperam enquanto o jovem pegava as bocas e as jogava pela janela. Não era preciso fazer mais nada.
Com o causador destruído, o jovem voltou a si. Percebeu que teria problemas. Mas ao mesmo tempo em que estava enrascado, agora estava livre. Desceu as escadas correndo e rindo, diante dos olhos chocados dos espectadores. Já fora do prédio, gargalhava enquanto dobrava a esquina, para desde então, nunca mais ser visto.
Seis e meia

Já passou das seis. O dia foi estressante, e duas aulas de Química A seguidas eram as últimas coisas que eu iria querer. Eu estou sonolento, e o professor possivelmente percebeu isso, apesar dos mais de cem colegas que me rodeavam. Agora tudo acabou. Amanhã tem mais. Mas por hoje, o resto da noite significa livros, cadernos e apostilas. Química A é mais complicada que B.
O céu está enegrecendo, e esta hora é a mais esperada por todos. Inclusive os mais de trinta que estão na minha frente na fila. E isso é só o começo. Lá dentro está tudo lotado. E dentro do que todos esperamos, a situação não é mais animadora. Possivelmente passar pela terceira porta vermelha será um duelo de titãs. Mania que todos têm de ficar ao redor dela.
Atrás de mim vai se criando uma multidão, e na minha retaguarda está uma senhora. Cada vez que me mexo, minha mochila gigante a esbofeteia. Engraçado.
Os mais de trinta vão virando quinze, dez, vão virando cinco. Finalmente entro no mundo circular e minúsculo do desconforto e afobação.
Chega um. Cheio, não consigo entrar. Olho para o relógio preto no pulso de alguém, são seis e meia. Chega outro, enche, não consigo entrar. Preciso dar uns empurrões, tento ser educado, mas a lei da selva fala mais alto. Outras e várias vezes fui educado e fiquei na mão. Agora mesmo isso aconteceu. E olha que a instrução diz que devemos sempre esperar pelos outros! Estou bem na frente, acho que no próximo eu consigo entrar. Olho em volta e vejo que o número de pessoas diminuiu bastante.
Lá distante vem chegando o esperado. Lotado, ele para, abrem-se suas portas. Sim, a terceira porta está cheia de surdos que não ouvem a voz eletrônica dizendo, evite ficar na terceira porta. Muitos humanos. Ah, sim, tantos rostos cansados de mais um dia de servidão. Apesar de seu olhar hostil, preciso entrar. Também cansei hoje.
Com licença, me desculpe, com licença, com licença. Quarta porta. Por incrível que pareça, os ares por aqui são bem mais livres do que por lá. Essa concentração ao redor do três é intrigante. Paro ao lado de uma cadeira, e nela está sentada uma garota. Ela é meio loira, tem um rosto inesquecível, olhos castanhos que contam histórias tristes. Expressa beleza, exala inteligência. Ela não olha para mim, e não tem porque fazê-lo. Apenas eu, conforme a discrição permite, admiro-a e permito que meus olhos a contemplem, até que se passam uns quinhentos metros, e paramos novamente. Ela se levanta, não olha para mim, e sai. Junto com ela sai boa parte dos humanos ali presentes. Sento-me.
Pelo jeito lá fora há um burburinho. Tenho a impressão de ouvir alguém gritando, mas não consigo entender claramente. Deve ser só impressão. As portas se fecham, e ouço uma forte buzina. Fecho meus olhos e me concentro, esperando não precisar oferecer meu lugar para ninguém.
…
O Que Andam Falando