
-Eu estou certo!
-Não, você está errado!
-Por favor, como você consegue ser desse jeito? Eu já disse que estou certo.
-Por favor digo eu! Está na cara que você está errado!
-Olha só, vamos recapitular. Foi assim, assim, assim, assado! Não se lembra?
-Lembro-me, sim, meu querido. E me lembro perfeitamente que foi assado, assim, assado, assim!
-Isto é absurdo! Desde quando assado vem antes de assim? Não é ‘assim’ que as coisas funcionam, não, minha querida!
-Pois é assim sim e ponto final. Afinal, desde quando um negócio deste terminaria em assado? Só se for feito pela sua mamãe!
-Ah, nem vem! Não fale do jeito que minha mãe faz as coisas porque ela é ótima em tudo o que faz, diferente de certas pessoas por este mundo afora…
-Se ela fizesse tudo perfeito, você seria bem diferente… E quer saber mais? Se eu sou tão ruim e sua mamãezinha é tão perfeitinha vá morar com ela. Nem ela em toda a sua perfeição vai aguentar você por mais de uma semana.
-Quer saber? Eu vou mesmo. Mas vou para chamar ela até aqui, ensinar você a fazer as coisas direito.
-Então você vai ter que mandar ela fazer as coisas direito lá pela casa dela mesmo, porque aqui aquela mulher não pisa!
-Eu também mando nessa casa e traga minha mãe quando eu bem quiser!
-Tudo bem, traga sua mãe…
-O que você tá fazendo?
-Estou ligando para o meu pai. Ele vai adorar ficar uma temporada na casa da filhinha dele e do querido maridinho dela. E junto com a mamãe do maridinho de brinde, vai ser perfeito!
-Tá louca? Seu pai me odeia! Não lembra o que ele fez no nosso casamento?
-Hahaha, lembro, e me mato e rir toda vez que penso nisso. E como se não fosse pouco ele ainda ameaçou matar você se você não me fosse um bom marido…
-Ah, e agora você vai jogar na minha cara que eu não sou um bom marido? O que você quer mais? Tudo o que eu te dou e faço por você não é suficiente?
-Imagina! Você é um marido perfeito! Perfeito como tudo o que faz a sua mãe!
-Já falei pra tirar a minha mãe disso! Você está muito longe de ser a melhor esposa do mundo também…
-Pelo menos eu não tenho uma mãe que adora destruir o casamento dos filhos.
-E eu não tenho um pai que ameaça matar os maridos das filhas…
-Não vou mais perder meu tempo com você. Pode voltar pra casa da sua mamãe, porque eu tô fora. Adeus!
-Eu tô mais fora ainda! Adeus!
…tudo porque a receita de pavê dizia que ele deveria ser misturado, depois assado, depois montado, depois servido. isso que dá duas crianças quererem se casar…
“Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne.” Ef 5:31


Secreto. Interno. Escondido. São seus pensamentos que vagam correndo no infinito de sua mente, enquanto ele vive, enquanto ele existe. Ele senta-se e deixa que eles sejam, que façam, e por muito tempo deixou que o controlassem. Mas sua ânsia por liberdade permitiu-lhe deixar que fugissem da mente para fora, tornando-se parte do mundo, parte do todo. E agora ele deixa os outros deles estarem. Estarem no que ele faz, no que em breve terminará. Não se sabe o quanto, não se sabe como, mas ele faz, ah, sim ele faz. E na verdade sempre fez, e acho que os outros também o fizeram. Se ele permitia que seus pensamentos escorressem como gotas sangue sobre seus dedos, aquilo que faria o que fez, então ele tentava permitir que a liberdade o encontrasse, sem que outros o encontrassem também. Ele pensa que é comum deixar que o rio corra com suas caudalosas águas, mesmo que às vezes as barragens sejam mais fortes. Não importa a força de tais barreiras, pois aquilo que é livre respira a liberdade e desta não pode se afastar. Chega o tempo certo, rompem-se as barragens, correm as águas e retiram toda sombra de variação, todo espírito de confusão. Molhadas pelas águas, as árvores do ser são curadas, têm sua seiva restaurada, e começa-se a ver os frutos surgindo, em uma situação acima do natural. Muito além do normal.
Andei apressadamente, olhando para trás. Era tarde da noite, a bateria do celular tinha acabado; não costumo usar relógio. Luzes apagadas, nada de carros, nada de pessoas, uma lua gigantesca fazendo com que os galhos das àrvores, ao olhar para cima, tornassem-se ameaçadores braços. Olhei para baixo, meu tênis estava sujo. Olhei para os lados, puro vazio. Como poderia isso estar acontecendo?
Quando a brisa leve das gotas se vai, e a rajada das rochas também, por muitas vezes o que sobra são os pensamentos. E neles não há lugar para limitações, não há espaço para dimensões, pois a mente é o mundo no qual diferença entre sonho e realidade, entre ausência e presença pode ser tão grande que nos afogue como pode simplesmente não existir. Dentro da cabeça racional que nos foi dada, há liberdade para acreditar, duvidar, ser, ter, andar ou parar. Porque o pensar gera o crescer, e são das dúvidas que surgem as soluções.

O Que Andam Falando