Somente.

Pseudoema
Ensaio sobre a ansiedade I - Espelho

Últimas

Assado assim

-Eu estou certo!

-Não, você está errado!

-Por favor, como você consegue ser desse jeito? Eu já disse que estou certo.

-Por favor digo eu! Está na cara que você está errado!

-Olha só, vamos recapitular.  Foi assim, assim, assim, assado! Não se lembra?

-Lembro-me, sim, meu querido. E me lembro perfeitamente que foi assado, assim, assado, assim!

-Isto é absurdo! Desde quando assado vem antes de assim? Não é ‘assim’ que as coisas funcionam, não, minha querida!

-Pois é assim sim e ponto final. Afinal, desde quando um negócio deste terminaria em assado? Só se for feito pela sua mamãe!

-Ah, nem vem! Não fale do jeito que minha mãe faz as coisas porque ela é ótima em tudo o que faz, diferente de certas pessoas por este mundo afora…

-Se ela fizesse tudo perfeito, você seria bem diferente… E quer saber mais? Se eu sou tão ruim e sua mamãezinha é tão perfeitinha vá morar com ela. Nem ela em toda a sua perfeição vai aguentar você por mais de uma semana.

-Quer saber? Eu vou mesmo. Mas vou para chamar ela até aqui, ensinar você a fazer as coisas direito.

-Então você vai ter que mandar ela fazer as coisas direito lá pela casa dela mesmo, porque aqui aquela mulher não pisa!

-Eu também mando nessa casa e traga minha mãe quando eu bem quiser!

-Tudo bem, traga sua mãe…

-O que você fazendo?

-Estou ligando para o meu pai. Ele vai adorar ficar uma temporada na casa da filhinha dele e do querido maridinho dela. E junto com a mamãe do maridinho de brinde, vai ser perfeito!

-Tá louca? Seu pai me odeia! Não lembra o que ele fez no nosso casamento?

-Hahaha, lembro, e me mato e rir toda vez que penso nisso. E como se não fosse pouco ele ainda ameaçou matar você se você não me fosse um bom marido…

-Ah, e agora você vai jogar na minha cara que eu não sou um bom marido? O que você quer mais? Tudo o que eu te dou e faço por você não é suficiente?

-Imagina! Você é um marido perfeito! Perfeito como tudo o que faz a sua mãe!

-Já falei pra tirar a minha mãe disso! Você está muito longe de ser a melhor esposa do mundo também…

-Pelo menos eu não tenho uma mãe que adora destruir o casamento dos filhos.

-E eu não tenho um pai que ameaça matar os maridos das filhas…

-Não vou mais perder meu tempo com você. Pode voltar pra casa da sua mamãe, porque eu fora. Adeus!

-Eu mais fora ainda! Adeus!

…tudo porque a receita de pavê dizia que ele deveria ser misturado, depois assado, depois montado, depois servido. isso que dá duas crianças quererem se casar…

 “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne.” Ef 5:31

Códigos

Secreto. Interno. Escondido. São seus pensamentos que vagam correndo no infinito de sua mente, enquanto ele vive, enquanto ele existe. Ele senta-se e deixa que eles sejam, que façam, e por muito tempo deixou que o controlassem. Mas sua ânsia por liberdade permitiu-lhe deixar que fugissem da mente para fora, tornando-se parte do mundo, parte do todo. E agora ele deixa os outros deles estarem. Estarem no que ele faz, no que em breve terminará. Não se sabe o quanto, não se sabe como, mas ele faz, ah, sim ele faz. E na verdade sempre fez, e acho que os outros também o fizeram. Se ele permitia que seus pensamentos escorressem como gotas sangue sobre seus dedos, aquilo que faria o que fez, então ele tentava permitir que a liberdade o encontrasse, sem que outros o encontrassem também. Ele pensa que é comum deixar que o rio corra com suas caudalosas águas, mesmo que às vezes as barragens sejam mais fortes. Não importa a força de tais barreiras, pois aquilo que é livre respira a liberdade e desta não pode se afastar. Chega o tempo certo, rompem-se as barragens, correm as águas e retiram toda sombra de variação, todo espírito de confusão. Molhadas pelas águas, as árvores do ser são curadas, têm sua seiva restaurada, e começa-se a ver os frutos surgindo, em uma situação acima do natural. Muito além do normal.

Não há nada planejado, não há roteiros prontos, apenas uma mente que permite o deslizar das palavras, da pena ao papel. E enquanto ele consegue, vai deixando que flua sem parar para pensar nas maneiras de juntar, no melhor jeito de combinar. Se houver ritmo, houve, se houver inércia, houve também, e com a vida própria que tem tudo aquilo que já é si por si, os sentidos se abrem, e por trás deles outros se escondem, e por trás destes outros também. Não há necessidade de limão ser limão, e por que terra tem que ser chão? A poesia guarda sentidos que ninguém é capaz de compreender. Palavras juntas escondem gemidos que ninguém é capaz de escutar, e por trás de aquilo que se escreve, se diz, se expressa, há clamores de almas aflitas, regozijo de almas agradecidas, há a realidade do que é ser humano. Sofrer, sentir, amar, aprender, sorrir. E em cada uma dessas coisas, estão lá nossos códigos, encriptados por uma ciência que ciência alguma é capaz de desmembrar, e quem sabe o encriptador nunca tenha um sequer que entenda o sentido em seus mistérios lá codificados.

Dor | Mini-part.1

Doente. Doendo. Ele não pôde dormir. Sua dor lancinante o perturbava, seus remédios recém-comprados não o ajudavam. Ele não conseguia pensar, ele não conseguia clamar.O silêncio era a melhor forma de tentar fingir que aquilo não estava acontecendo. Quem sabe passava. Quem sabe. Não passou.Escuro. Sim, tudo escuro, mas não tudo tudo, algumas pequeninas luzes apareciam. Uma mesmo pequena, doía em seus olhos. Mais dor, não. Escuro é melhor. Pano por cima,desespero por dentro. Dor, vá embora, dor, não te aguento, dor, dor, me deixe dor, por favor. Mas ela não o deixou tão cedo. O remédio começou a agir um pouco, a dor se amenizou, mas ele não percebeu. Finalmente pôde descansar.
Dor. Pouca, mas ameaçadora. Comeu, comeu, doeu. Não, não, não volte, dor. Voltou. Mais remédios, mais dor, tontura, tudo girando. Dentre as dores menos graves, esta está entre as três piores. Não sabia se gritava, se chorava, se batia a cabeça na parede ou se entupia-se de remédios. Quarta opção, por favor.

Andou com a dor. Passou o dia com a dor. Por momentos, quase chorou. Suas mãos tremeram, seu corpo enfraqueceu. A dor quando quer é capaz de derrubar o mais forte do fracos guerreiros. Ele não era o mais forte, talvez o mais fraco de todos. Sobreviveu, como é de costume dos fracos. Serve para que sofram mais e se fortaleçam.

A árvore seca

Andei apressadamente, olhando para trás. Era tarde da noite, a bateria do celular tinha acabado; não costumo usar relógio. Luzes apagadas, nada de carros, nada de pessoas, uma lua gigantesca fazendo com que os galhos das àrvores, ao olhar para cima, tornassem-se ameaçadores braços. Olhei para baixo, meu tênis estava sujo. Olhei para os lados, puro vazio. Como poderia isso estar acontecendo?

Comecei a correr, acelerei em direção à nada. Fujia do nada. Uma luz se acendeu, seguida de outra, seguida de outras. Ofegante, cheio de dúvidas, perdido, senso de direção desligado. Olhei para a trilha de luzes dos postes e vi que lá no horizonte, onde as luzes continuavam mas meus olhos não viam, surgia alguém. Num instante meus olhos não viam mais nada. Um clarão tomou conta de minha visão, e o que via era somente branco. Onde estava toda aquela escuridão?

De supetão acordei. “Foi só um sonho. Ufa!” Há sonhos que são tão reais, chegam a nos dar medo mesmo depois de acordados. Ainda era noite, levantei. Liguei a luz, fui tomar um copo d’água.

Foi só um sonho, só isso. Sou feliz, sou uma pessoa boa, minha vida é tudo que eu gostaria de ter”.

(Será?)

Era só o que faltava. Vou discutir comigo mesmo às… 3 horas da manhã!”

(Será que sou feliz realmente?)

Pare de pensar nisso! É claro que sou feliz! O que mais alguém poderia querer?”

(Talvez… Ser verdadeiro comigo mesmo, que tal?)

A única pessoa pra quem eu não posso mentir é pra mim mesmo, que história é essa de ser verdadeiro?”

(Engano meu. Estou mentindo pra mim mesmo a vida toda. Sei muito bem.)

É claro que eu não mentia pra mim mesmo. No auge dos meus 22 anos, eu apenas estava vivendo o melhor de minha vida. Alguns amigos e meus pais vinham com papos de religião, mas eu lhes deixava claro que isso não era para mim. Afinal, nunca matei ninguém, nunca roubei (pelo menos até onde me lembre) e não praticava o mal. Era uma boa pessoa, ora! Religião? Ah, deixe isso pra outros. Eu queria ser livre. Às vezes, quando não tinha nada pra fazer, até lia a Bíblia! É claro que acreditava em Deus. Apenas não dependia de religiões.

Como minha mente era escura. Como eu era egoísta e enganado! Eu mentia em minha própria cara e cuspia para mim mesmo todo o lamaçal que havia em meu interior. Eu fujia dos meus medos, ao passo que o meu maior medo era de mim mesmo. Dizia de boca cheia ser feliz por na verdade de coração vazio ser completamente triste. Uma lâmpada se acendeu em minha cabeça, em meio à minha discussão.

Talvez eu esteja mesmo. Talvez a alegria que eu sinto, o prazer que eu desfruto, a autosuficiência que penso ter sejam simplesmente mentiras que contei para mim, e tive a coragem de acreditar.”

(Agora sim minha mente está clareando! Parabéns a mim! Finalmente estou percebendo que tudo o que vivi até agora não teve sentido nenhum!)

Sim, é isso mesmo! Meus sapatos estão sujos, pois tenho andado na pura lama. Estou desnorteado porque preferi andar na escuridão. Braços terríveis ao mesmo tempo que me conduziram para onde estou, também me assustam onde me colocaram. Como pode ser?”

Ohei para o copo d’água, bebi. Olhei para  a mesa, a Bíblia estava nela. A Bíblia estava aberta. Mais cedo eu a havia folheado e deixado por ali. Ao ler o que estava escrito, minhas lágrimas não deixaram de rolar. E ali, no chão da cozinha, prostrei-me diante daquele que fez o céu e a terra. Não sei a que horas levantei, mas lembro-me como hoje, quebrei-me, confessei todos os meus erros e minhas falhas, e supliquei a Jesus que me aceitasse. “Eu preciso do Senhor, eu anseio pelo Senhor, eu não sou nada sem o Senhor!” Desde então, aquela àrvore seca que eu era, não sou mais. A Água Viva que bebi limpou-me, transformou-me, salvou-me. Não sou mais eu. Cristo vive em mim.

Muitas árvores secas. Muitas vidas mortas. Muitas almas sedentas. Cabe àquelas que receberam a vida anunciar às outras a esperança que há em Cristo. Que todos sejamos, através de nossos atos, àrvores vivas, que dão bons frutos e são bênçãos nas mãos dAquele que tudo fez, e que a todos ama com amor maior que a morte, transformador de toda a vida.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” Jo 4.13,14

Última chance

Ensaio sobre a ansiedade II – Moradias

Quando a brisa leve das gotas se vai, e a rajada das rochas também, por muitas vezes o que sobra são os pensamentos. E neles não há lugar para limitações, não há espaço para dimensões, pois a mente é o mundo no qual diferença entre sonho e realidade, entre ausência e presença pode ser tão grande que nos afogue como pode simplesmente não existir. Dentro da cabeça racional que nos foi dada, há liberdade para acreditar, duvidar, ser, ter, andar ou parar. Porque o pensar gera o crescer, e são das dúvidas que surgem as soluções.

Porém aqui é tudo escuro. Tudo são vislumbres, tudo ilusão. A vaidade permeia o estar, o fazer, e até o pensar. Sendo assim, mesmo que para agora tantos processos dialéticos pareçam importantes, haverá um tempo em que tudo não mais assim será. Ao nos lembrarmos de tantas preocupações já ultrapassadas, tantos medos já sentidos, percebemos o que na verdade deveríamos sempre ter entendido. Vaidade das vaidades, todos os dias vivemos vaidades.

O tempo passa e a vida muda subitamente. Tantos desejos, tantos projetos podem dissolver em um instante. Prioridades acabam sendo invertidas e toda a estrutura que possuíamos se instabiliza mesmo sem querer. E como é difícil retornar ao que se era, como é difícil renovar as forças que se possuía. Mas em meio ao mar de pessimismo e desilusão, surge na memória a lembrança de algo bom. Renovar as forças não é impossível, e a verdade nisto é tão grande, que até mesmo voar torna-se um alvo atingível. As águias têm uma força gigante, mas O Dono das moradias está além de qualquer coisa. Ele É.

Moram nas casas humanos, e moram em humanos corações. Moram em corações sentimentos, moram em sentimentos palavras que me faltam. Palavras que dizem da alegria, da tristeza, da verdade do viver. Palavras que ainda não chegaram, e sempre se ausentam quando delas se espera a presença.

Mas nos sentimentos não há apenas as palavras. Por mais que o silêncio na verdade não exista, por ser apenas a ausência de todo o som, ele também ali se faz morar, trazendo dúvidas a corações partidos pelo medo do que foi ou do que será. E este silêncio por vezes traz dor, impedindo a qualquer um de ver a resposta que nele existe. Quando se volta os ouvidos para ouvir a voz incrível que no silêncio ou no barulho, na brisa ou na tempestade, nos gritos ou nos sussuros pode algo dizer, é possível entender e perceber quão belas são as palavras (mesmo que ditas na escuridão de um quarto isolado, em meio a uma multidão opressora ou em momentos de alegria e comunhão) proferidas pela Voz que criou todas as moradias, e prepara novas em uma casa eterna e completamente inimaginável.

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar.” Jo 14.1,2

Bagagem

Pseudoema

Não gosto de poesia,

confesso com grosseria

Falta-me muita paciência

para ver nisto pertinência

-

Mas como palavras esperam

que algo co’elas seja escrito

Trato de rimas fazê-las

Pseudoemas no sentido estrito.

-

Certa feita, tentei fazer

narrativa e aqui transcrever

Mas faltou-me inspiração para tal

tive então que delas me abster

-

Sem outro rumo a seguir

por pseudoema decidi me decidir

E desta ruim decisão

surgiu tão chato bordão

-

Se quiseres culpar-me

culpar-te não irei

Por tão fracamente eu ceder

à facilidade de um poema escrever

Ensaio sobre a ansiedade I – Espelho

“Tick-tack. Onomatopéia.

Hahahahaha. Onomatopéia

Solidão. Depressão.

Sentimento, recessão.”

As gotas são muitas, brilhando nos vidros, caindo nas ruas. As torres, bem altas balançam com as árvores, e a escuridão das negras nuvens dissolve-se ao correr dos ponteiros imaginários acima do verde quadro.

Há alguns minutos não havia ninguém, mas agora as risadas se unem às conversas, se ouvem ruídos, ranger de tênis, batidas na parede, e à medida que o barulho se intensifica, assobios, objetos caindo, cadeiras arrastando, vozes imaginárias, lembranças, ploc-ploc, calçado de salto, porta fechando, folhas se alternando, zíper se abrindo, caneta escrevendo, alguém observando, tudo gritando.

- Leute, ich habe nicht die Anwesenheitsliste zu bringen, aber du Zeichen der Liste.

A solidão facilita a observação. Aos poucos, as engrenagens vêm parando, parando, param e resta o silêncio.

O coração bate forte, o alto número de sensações agita os nervos. Incrívelmente, só de ouvir, a ansiedade se apresenta novamente.

Olhos fechados, tudo escurece. Porém, é possível ver a claridade das dúvidas, dos medos, da ânsia. O corpo estremece e o frio abraça a insegurança, somente vê-se o branco, somente ouve-se o nada, mas há ruídos, há cores, há amigos, há vida, há medo.

(O que será?)

Explode.

Real.

Volta.

Muda.

.aduM

.atloV

.laeR

.edolpxE.

(É.)

Olhos abertos, tudo clareia. E é impossível ver a escuridão das dúvidas, dos medos, da ânsia. O corpo enrijece e o calor se afasta da segurança, não vê-se o escuro, não ouve-se o tudo, e finda-se o silêncio, findam-se pedras, finda-se o frio, anda sussurros.

Sim e sim ou sim e não. Multidão, repetição. Multidão que afoga a tranquilidade. Subitamente tudo volta. Tudo corre, engrenagens, giros, gritos, nada no tudo, gritos no escuro. O coração se estabiliza, batidas em normal, mas o sangue se congela, as sensações se dissolvem.

- Einfach. Sie sind sehr hartnäckig.

Tudo está cheio, ou vazio, confuso. Se há ou não há, se cai ou caiu, os gritos são surdos, tão mudos, não têm força em seu desespero. No anseio, medidas, silêncio, silêncio, anseio, medidas. Sopros soprando, vento ventando, nada nadando, ande em andando, luz enluzando, quieto qui…e…tan… …ndo.

#EE82EE, o ‘círclo’, abaixo de si, não está ponteirado, e as pedras mui claras se unem no viver da daninha que, inerte a existência dos cadarços, ressoa pelo evaporar das gotas que, ao tocarem nas flamejantes e violentas rajadas da espessa rocha derretida, trazem toda a destruição de um sonho desmoronado.

“Herzlichen Glückwunsch, durch die Übersetzung
Von dieser Text hier
Aber, ich bedauere, zu informieren
Dass dies ist nicht hilfreich.”

In the rough

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